Durante anos, a cerveja ocupou um lugar confortável no consumo fora de casa. Estava connosco na esplanada, no almoço de sexta-feira, no encontro depois do trabalho, no jogo de futebol e em praticamente qualquer desculpa para reunir amigos.
No entanto, as dinâmicas de consumo raramente ficam paradas.
Até ao P7 de 2026, a cerveja perdeu 3% das ocasiões de consumo fora de casa e 2% em valor (vs. MAT P7 2025). Ainda assim, o número de compradores manteve-se estável (-0,3%). À primeira vista pode parecer um detalhe, mas é precisamente aqui que começa a parte interessante da história. A categoria não está a perder consumidores. Está a perder frequência (-3%). Os portugueses continuam a consumir cerveja fora de casa. Mas estão a fazê-lo menos vezes.
Quem está a faltar à chamada?
Quando uma categoria perde compradores, a preocupação é evidente: preciso de voltar a atrair pessoas. Quando os compradores se mantêm e a frequência diminui, o desafio é diferente. Exige uma profunda reflexão.
Os dados mostram que a cerveja continua presente nos hábitos dos portugueses, mas deixou de estar tão presente em alguns momentos do dia-a-dia. Os consumidores continuam a entrar na categoria, mas escolhem fazê-lo de forma mais seletiva.
Esta realidade não surge isolada. Em vários mercados europeus cresce a intenção de reduzir o consumo de álcool, sendo Portugal um dos países onde os consumidores com menos de 35 anos mais manifestam essa intenção (Who Cares? Who Does? Health 2025, PT, SP,FR, GB, IE, Worldpanel by Numerator, YouGov, Europanel). A moderação deixou de ser uma tendência emergente para se tornar uma atitude cada vez mais presente nas decisões de consumo
Porém, reduzir não significa sair. E os dados mostram precisamente isso.
Esperem-me num bar
Num ano em que a categoria perde ocasiões, os bares surgem como o principal contributo positivo para o crescimento da cerveja total (+5%), da cerveja com álcool (+4%) e da cerveja sem álcool (+20%). Pelo contrário, os restaurantes independentes e as pastelarias são os canais que mais penalizam o desempenho da categoria.
Os dados sugerem que a cerveja continua particularmente forte quando a principal motivação da saída é socializar. Aliás, sair para beber algo continua a ser a motivação que mais contribui positivamente para a categoria, representando também o principal motor de crescimento da cerveja com álcool e da cerveja sem álcool.
Há coisas que mudam devagar. A ligação entre cerveja e convívio parece ser uma delas.
Os bares continuam a fazer aquilo que fazem melhor: juntar pessoas. E a cerveja continua a ser uma das bebidas preferidas quando o objetivo é colocar a conversa em dia, celebrar uma pequena vitória ou simplesmente prolongar um final de tarde que estava previsto durar apenas meia hora.
O almoço já não pede uma fresquinha?
Se existe uma ocasião que ajuda a explicar parte da pressão sobre a categoria, essa ocasião é o almoço.
O almoço é o momento que mais contribui negativamente para a cerveja, com uma perda de 3% das ocasiões. Em sentido inverso, o lanche, o antes do jantar eo depois do jantar são os momentos que apresentam contributos positivos.
A fotografia é reveladora. Durante décadas, a cerveja sentou-se confortavelmente à mesa do almoço português. Hoje continua convidada, mas parece já não ter lugar reservado.
Enquanto as refeições principais se tornam mais funcionais e compatíveis com rotinas de trabalho exigentes, a cerveja continua a revelar maior força nos momentos de descontração entre refeições. A deslocação não é apenas cronológica. É também comportamental. A própria motivação estar a trabalhar surge entre os maiores travões ao crescimento da categoria, ao contrário do sair para beber algo.
Abrem-se oportunidades para a categoria conquistar novos territórios, especialmente em ocasiões mais informais, momentos intermédios e contextos onde a socialização pesa mais do que a refeição em si.
Quem continua a brindar?
Contrariamente a algumas perceções, os jovens não desapareceram da categoria.
A Geração Z é precisamente o target que mais contribui positivamente para a evolução da cerveja, tanto na categoria total como na cerveja com álcool. Enquanto os Baby Boomers apresentam as maiores quedas de consumo.
Estamos perante um paradoxo interessante: os consumidores mais jovens são simultaneamente aqueles que demonstram maior preocupação com temas como a moderação, a saúde e o equilíbrio, contudo também é verdade que continuam profundamente ligados a experiências sociais, autenticidade, conveniência e escolhas alinhadas com os seus estilos de vida.
Talvez a questão não seja se os jovens querem cerveja. Mas sim se a cerveja está a conseguir acompanhar a forma como os jovens querem viver.
Uma cerveja, se faz favor. Com ou sem álcool?
Poucas áreas ilustram melhor esta transformação do que a cerveja sem álcool.
À primeira vista, os números parecem contraditórios. As ocasiões de consumo recuam 15%, a frequência diminui 10% e o número de compradores cai 5%. Mas,simultaneamente, o valor cresce 28%, o gasto por ato aumenta 52% e o volume consumido por ocasião sobe 38%.
Por outras palavras, existem menos momentos de consumo, mas esses momentostornaram-se significativamente mais relevantes. Menos consumo de rotina e maisconsumo intencional.
O que estamos a assistir não é apenas ao crescimento de um segmento. É à expansão do território da cerveja para momentos onde historicamente a categoria tinha menor legitimidade.
A cerveja sem álcool está a deixar de ser uma escolha excecional para se afirmar como uma alternativa legítima. O sucesso observado em mercados como Espanha, onde chega a 34% dos consumidores, mostra precisamente isso: a categoria cresce quando a escolha é normalizada e quando deixa de ser vista apenas como um substituto da cerveja tradicional.
Houve um tempo em que pedir uma cerveja sem álcool exigia uma justificação. Hoje, cada vez mais consumidores pedem-na simplesmente porque querem. E esta diferença muda tudo.
Onde está a próxima ronda de crescimento?
A cerveja continua a ser uma das bebidas mais relevantes no consumo fora de casa para os portugueses. Mantém-se associada ao convívio, à descontração e aos momentos de partilha. Mas os dados mostram-nos que as regras do jogo estão a mudar. Os consumidores não procuram necessariamente menos experiências. Procuram experiências diferenciadas. Não é uma redução da procura por prazer, mas uma procura por um prazer com mais equilíbrio. Convívios mais alinhados com as suas necessidades, os seus valores e os seus estilos de vida.
A boa notícia é que a categoria possui todos os ingredientes para responder a esta mudança. Tem marcas fortes. Tem capacidade de inovação. Tem presença em praticamente todos os canais. E tem algo que poucas categorias conseguem reivindicar: uma ligação emocional profundamente enraizada nos momentos sociais.
O verdadeiro desafio não está em vender mais uma cerveja na mesma ocasião de sempre. Está em criar novas ocasiões. Em conquistar novos momentos, aqueles em que a cerveja ainda não entra à vontade. Está em tornar a categoria relevante para um almoço, para um dia de trabalho, para uma saída rápida, para quem conduz, para quem procura moderação ou simplesmente para quem quer conviver sem abdicar das suas escolhas.
Porque talvez o futuro da cerveja não passe por pedir mais uma rodada. Mas por encontrar mais motivos para brindar. E este é um desafio que não pertence apenas às marcas, aos distribuidores ou ao canal HORECA. Pertence a toda a categoria.
O convite está lançado, agora é tempo de descobrir onde será levantado o próximo copo.
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